Eu não sei para vocês, mas o projeto dessa estação de trem é de longe o meu preferido entre os prédios públicos construídos no estilo modernista...
Retomar a reflexão sobre um patrimônio histórico-arquitetônico do grau de importância da estação ferroviária de Mairinque coloca-se como um grande desafio à vista, não só no que diz respeito às características particulares do edifício, como também às reflexões já realizadas por personalidades do meio acadêmico, da envergadura de Nestor Goulart Reis Filho, Carlos Lemos, Hugo Segawa e outros (2).
Estação de Mairique
Foto Victor Hugo Mori
No entanto, este texto, inspirado pelas especificidades urbanísticas, arquitetônicas e construtivas da estação de Mairinque, encontra-se respaldado pelo chamamento feito pelo professor Lemos – quando proferiu a conferência de abertura do III Seminário Docomomo do Estado de São Paulo, ocorrido em agosto de 2005, na cidade de São Paulo (3) –, o qual sugeriu, naquela ocasião, que um possível inventário das obras modernistas, na cidade ou no estado, deveria ter início a partir da referida obra de Dubugras.
Sem a pretensão de encabeçarmos o inventário mencionado pelo Professor Lemos, esta reflexão tem, como objetivo principal, a intenção de reafirmar a relevância cultural deste importante patrimônio da arquitetura e da engenharia ferroviária brasileira e, também, de alertar as autoridades responsáveis e segmentos da sociedade, interessados na preservação de nosso patrimônio histórico-arquitetônico, para o estado de quase abandono em que a mesma se encontra, para isso nos valendo de um minucioso e atual levantamento fotográfico.
Situação atual das antigas casas [Acervo pessoal do autor, 2008]
Contextualização histórica sobre o papel da ferrovia
Uma breve contextualização histórica sobre o papel da ferrovia na configuração do entrocamento ferroviário, que viria a dar origem à cidade de Mairinque (4) e à própria estação de Dubugras, se faz necessária, para que possamos visualizar e entender o atual desenho daquele fragmento urbano.
Nos anos de 1870, foi fundada, por fazendeiros da região de Itu e empreendedores da cidade de Sorocaba, a Companhia Ituana de Estradas de Ferro, com o objetivo de ligar a mencionada região ao terminal da São Paulo Railway, localizado em Jundiaí. No entanto, por divergências entre os principais acionistas, relacionadas à definição do traçado para a implantação do trecho principal da Companhia Ituana, os empreendedores sorocabanos, liderados por Luís Matheus Maylasky, resolveram fundar, no mesmo ano de 1870, uma nova companhia ferroviária denominada Estrada de Ferro Sorocabana (5).
Detalhe construtivo [Acervo pessoal do autor, 2008]
Essa nova estrada de ferro tinha por objetivo a ligação entre São Paulo e uma importante siderúrgica chamada “Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema”, ou Fundição Ipanema, que existiu na região de Sorocaba, hoje município de Iperó. Tal trecho, com uma extensão de 120 km, foi inaugurado em 1872. Para se ter uma idéia da importância dessa siderúrgica para a época, os seus altos-fornos produziram armas e munições para a Guerra do Paraguai, assim como todos os artigos necessários ao Brasil do século XIX, tais como: panelas de ferro, engenhos de açúcar e café, gradis, compassos, escadas, luminárias, etc. (6)
Divergências iniciais entre os acionistas acabaram por resultar na constituição de duas companhias de estradas de ferro (Ituana e Sorocabana). Algumas décadas depois, as duas companhias se fundiriam, criando-se a Companhia União Sorocabana e Ituana de Estradas de Ferro.
A Companhia União Sorocabana e Ituana atravessou graves crises financeiras, ocorridas na década de 1900, além de ter passado, nesse mesmo período, por diversos gestores, como o Governo Federal, o Governo do Estado de São Paulo, o consórcio internacional “Brasil Railway”, retornando, em 1918, para o Governo do Estado de São Paulo. Nesse momento, a antiga Companhia vem a ser submetida a um programa de modernização, marcado pela aquisição de novas máquinas e equipamentos, ampliações de linhas, construções de novas oficinas e estações, dentre as quais a nova estação inicial da cidade de São Paulo, Estação Júlio Prestes (projeto do arquiteto Cristiano Stockler das Neves,1926), atual Sala São Paulo (projeto do arquiteto Nelson Dupré, 1997), sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – OSESP.
Em que pesem todos os investimentos realizados pelo Governo do Estado de São Paulo, a favor da Companhia União Sorocabana e Ituana, a realização mais significativa, nesse período, veio a ser a construção do trecho ligando Mairinque a Santos, inaugurado em 1938, encerrando definitivamente o monopólio da São Paulo Railway, no tocante ao acesso ao porto de Santos.
As ferrovias, cumprindo o papel de elementos desencadeadores de novos pólos urbanos, como bem pode ser verificado, mediante a expansão da rede de cidades no interior paulista, também foram fatores determinantes para o surgimento e desenvolvimento da cidade de Mairinque.
Como consequência da expansão das companhias Ituana e Sorocabana e em função da sua localização estratégica, que possibilitou a criação do entrocamento dessas duas estradas de ferro, Mairinque pôde ser privilegiada com a instalação das oficinas da Sorocabana e com a construção de uma estação ferroviária do tipo “ilha”. Essa estação-ilha, apesar das intervenções sofridas ao longo do tempo, que prejudicaram a apreensão do projeto original do arquiteto Victor Dubugras como um todo harmônico, despojado e funcional, guarda ainda elementos originais que revelam concepção arquitetônica e técnica construtiva avançadas para a época, configurando-se como obra excepcional dentro do contexto das estações ferroviárias paulistas (7).
O surgimento da cidade de Mayrink
O núcleo originário do surgimento da cidade de Mairinque está simbolizado pela inauguração, em 1875, da primeira estação ferroviária (construída totalmente em madeira), denominada de Estação “Manduzinho”. Tal fato é decorrente do entroncamento ferroviário entre as estradas de ferro Sorocabana e Ituana, em terras pertencentes à antiga fazenda Canguera.
O primeiro assentamento humano que veio a se constituir na “Villa Mayrink”, data de 1890. Tratava-se de um empreendimento imobiliário que tinha como objetivo a construção de 100 casas, que seriam alugadas aos funcionários da Estrada de Ferro Sorocabana, enviados para a construção do pátio de manobras, das oficinas e da estação. A “Villa Mayrink” foi fundada pelo Conselheiro do Império e Engenheiro formado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, Francisco de Paula Mayrink, que, na época, estava à frente da Estrada de Ferro Sorocabana, o que explica o nome dado à cidade.
Conjunto das casas dos funcionários da ferrovia
Foto: Acervo pessoal do autor, 2 [Centro da Memória Ferroviária de Mairinque]
A Companhia União Sorocabana e Ituana, objetivando a expansão da ferrovia, adquiriu, em 1893, as terras da fazenda Canguera, para a construção das casas dos operários, do pátio de manobras e das oficinas de manutenção. Em 1901, vieram a se somar à infra-estrutura já instalada as oficinas da ferrovia da Estrada de Ferro Sorocabana, que são transferidas da cidade de Sorocaba para a quase consolidada cidade de Mairinque, que, em 1903, recebe a construção de três quarteirões de casas destinadas aos funcionários da ferrovia.
Com a expansão natural desse núcleo urbano, fez-se necessária a substituição da antiga estação “Manduzinho”, construída totalmente em madeira, por outra mais moderna, o que veio a ocorrer em 1906, com a inauguração da Estação Ferroviária de Mayrink, projetada pelo arquiteto Victor Dubugras.
A cidade de Mayrink é elevada à categoria de município somente em 31/12/1958, por meio da Lei nº 5.121, desmembrando-se definitivamente do município de São Roque.
Sobre o arquiteto Victor Dubugras
Victor Dubugras, nascido na França, formado em arquitetura na Argentina e radicado em São Paulo a partir de 1891, além de sua vasta obra arquitetônica, foi professor dos cursos de engenheiros civis e engenheiros arquitetos da Escola Politécnica de São Paulo, fundada em 1894 (8).
Segundo Nestor Goulart Reis Filho, Victor Dubugras apresenta uma ampla obra que é representativa das várias etapas da Arquitetura latino-americana do final do século XIX à década de 30, do século XX (9). Entre as fases detectadas encontram-se: o gótico e o ecletismo, o protomodernismo e o neocolonial. Da fase gótica e eclética podem ser destacadas as seguintes obras: Grupo Escolar de Mogi Mirim (1897), Câmara Municipal e Cadeia de Santa Bárbara d’Oeste (1896) e o Grupo Escolar de Botucatu (1895). Na fase protomodernista: estação ferroviária de Mayrink (1906), projeto de edifício para a empresa “A Previdência”, no Largo da Sé, em São Paulo (1911), residências para João Dente, na Avenida Paulista (1912), e para Afonso Geribello, em Ribeirão Preto (1912). Na fase neocolonial podem ser citados: pouso para Paranapiacaba, no Caminho do Mar (1919), e várias residências.
Suas obras neocoloniais apresentam características inovadoras, por deixarem os materiais aparentes, como no caso da Ladeira da Memória (1919) e do Pouso da Serra de Paranapiacaba (1921). Algumas soluções formais são utilizadas em suas obras neogóticas e ecléticas, no período em que atuou como arquiteto do DOP – Departamento de Obras Públicas – do Estado de São Paulo. Detecta-se em sua produção a recusa ao uso de elementos simplesmente decorativos, pois estes normalmente escondem as verdadeiras características intrínsecas dos materiais e os aspectos construtivos dos edifícios.
Sobre este tipo de procedimento do arquiteto Victor Dubugras, Nestor Goulart afirma que:
“O ecletismo de Dubugras correspondia a uma postura fundamentalmente experimental, voltada para a pesquisa lógica dos processos construtivos e dos materiais, mais que uma preocupação formal e decorativa. Em sua arquitetura, a forma decorria da construção” (10).
O arquiteto demonstrava interesses de caráter moderno, tanto na linguagem arquitetônica quanto no emprego de materiais e técnicas construtivas, características que chamaram a atenção de seus contemporâneos, que se referiam às suas obras como modernas e racionais.
A estação ferroviária de Mairinque
A produção de edifícios ligados à expansão da malha ferroviária, além de constituir tipologias arquitetônicas e construtivas próprias e de desencadear o desenvolvimento urbano e econômico das principais cidades do interior do Estado de São Paulo, foi também responsável pela assimilação de processos técnico-construtivos inovadores, utilizados tanto na Europa como nos Estados Unidos, no transcorrer do século XIX e início do século XX.
"Victor Dubugras", Sandro Rolim, óleo sobre tela, 80 x 60 cm., Mairinque 2002
Foto: Acervo pessoal do autor, 2008 [Centro da Memória de Mairinque]
As companhias de estradas de ferro, em decorrência de seus ritmos acelerados de desenvolvimento, mantinham em seus quadros de funcionários profissionais especializados, que eram responsáveis pela elaboração e execução de projetos variados, tais como: armazéns, oficinas, moradias para os trabalhadores da linha, edifícios administrativos e, principalmente, estações. Estas últimas, pelo caráter articulador que possuíam, entre as atividades intrinsecamente ligadas ao cotidiano ferroviário e aos assentamentos humanos que ajudavam a formar, tornaram-se marcos urbanísticos referenciais em quase todas as cidades, amalgamando ao seu redor as principais atividades comerciais e de serviços de apoio à comunidade (11).
Implantação
A estação ferroviária de Mairinque, cumprindo também com essa função articuladora, apresenta características próprias; em primeiro lugar, por estar localizada em aterro elevado, no qual se configura o conjunto ferroviário como um todo, formado por oficinas, por armazéns e pela própria estação e, em segundo lugar, por estar implantada entre duas linhas férreas – Estradas de Ferro Sorocabana e Ituana –, constituindo, portanto, uma estação-ilha, sendo esta a tipologia explorada pelo arquiteto Victor Dubugras e pouco encontrada na malha ferroviária do Estado de São Paulo.
Sobre a característica de sua implantação, é importante destacar, ainda, o duplo papel que exerce a passagem sob o leito ferroviário, ou seja, além de resolver os naturais conflitos entre o tráfego das composições e o pedestre/usuário, serve também como importante elo, unindo as duas partes da cidade, fragmentada pela presença da ferrovia.
Vista geral da estação-ilha
Foto: Acervo pessoal do autor, 2008 [Centro da Memória Ferroviária de Mairinque]
No tocante aos aspectos funcionais do edifício em si, o mesmo é caracterizado por uma solução simétrica, que organiza as funções principais de uma estação ferroviária, ou seja, num extremo localizava-se o bar/restaurante, para atendimento aos usuários em trânsito, contando inclusive com uma adega subterrânea, e, no extremo oposto, o armazém das encomendas que deveriam ser transportadas pela ferrovia. No centro, ficava o saguão público, apresentando pé-direito duplo, que abrigava os guichês das bilheterias e o gabinete do chefe da estação. Na área intermediária, entre o armazém e o saguão central, situava-se o conjunto de sanitários, a área privativa reservada às senhoras e as escadas de acesso ao pavimento superior, onde se encontrava o almoxarifado. Na mesma situação, mas do lado oposto, separado pelo alto pé-direito do saguão principal, localizavam-se apenas as escadas que davam acesso ao telégrafo, situado no pavimento superior.
Aspectos construtivos
Para descrevermos os aspectos construtivos da Estação de Mairinque, optamos por citar, na íntegra, trecho do texto extraído da Revista Politécnica n. 22, datada de julho/agosto de 1908, intitulado “Uma Estação Modelo”. Este texto foi apresentado como anexo no “Relatório técnico para as obras de recuperação da estação de Mairinque”, apresentado à FEPASA – Ferrovia Paulista S/A pela PLANART S/C – Planejamento e Arquitetura Ltda., em março de 1979. Este trabalho foi coordenado pelo Professor Nestor Goulart Reis Filho.
Vista interna da passagem subterrânea com destaque para o acesso à estação [acervo pessoal da autora, 2008]
“O edifício é situado sobre um aterro, sendo o solo natural em forte declive, muito compressível e em camada profunda. Nestas condições o cimento armado, de que é inteiramente construído o edifício, offerecia tentativa seductora.
A estructura é composta de trilhos inutilizados, metal expandido e concreto (fotos 15 e 16) na proporção de 350 K cimento Lonquetv, 100 ht. de areia e 800 ht. de pedregulho de Tietê, ambos lavados.
A fundação é composta de uma lage de uma secção média de 0m14 por 1m00 de largura, armada de dois trilhos longitudinaes e de ferros velhos inutilisaveis, transversalmente.
Os corpos lateraes são constituídos de asnas de trilhos de 9K partindo da lage da fundação e fechando em arco – formando nervuras apparentes (fotos 17 e 18) e eqüidistantes de 2m07 que sustentam a cobertura – em terraço. Os intervallos são de paredes em painéis de metal expandido n. 15 de uma secção variável de 0m05 a 0m08.
Croqui esquemático sugerido para a Estação de Mairique
Os torreões que recebem os fios telegraphicos são compostos de trilhos, nos ângulos ligados por Lages de 0m05 de secção, de metal expandido n. 15 e concreto. A parte superior, cylindrica, constitue reservatório de água de 3m3 cada um os quatro ligados entre si por tubos. O coroamento é uma lanterna envidraçada.
A cobertura do hall, de um vão de 10m00 é de um só berço de uma secção de 0m05, no centro e 0m07 nos encontros, metal expandido n. 4 e nervuras de um trilho de 9 K eqüidistantes de 2m50.
O edifício é iluminado a acetyleno, gaz distribuído em toda a Villa operaria e officinas; porem existem dentro dos muros, encanamentos completos para electricidade.
A cobertura da varanda é composta de chapas de ferro galvanizado, ondulado, de 10 K por m2 sustentadas por trilhos de 9 K e um tirante de ferro redondo de 10 mm. O vão abrigado é de 5m50.
Escadarias de acesso à estação [Acervo pessoal do autor, 2008]
O pavilhão da bilheteria é constituído de ferro T de 0m05 e painéis de cimento armado de 0m03 de secção e metal expandido n. 1. Os caixilhos são de movimento vertical e vidro opaco no interior.
O reboco exterior é de cimento branco Lafarge e areia grossa, obtida depois de duas penetrações, offerecendo assim um grão homogeneo.
A construção foi levada a cabo com o pessoal das officinas da Locomoção da Companhia Sorocabana” (12).
A linguagem arquitetônica
Quanto aos aspectos arquitetônicos, nada melhor do que reproduzirmos dois trechos de publicações realizadas, respectivamente, pelo professor Carlos Lemos e pelo relatório da Planart, coordenado pelo professor Nestor Goulart Reis Filho, citados por Hugo Segawa em sua manifestação feita junto ao Processo Condephaat n. 24383/86 (13), sobre o tombamento da estação de Mairinque, na qual atestam o ineditismo desta obra, salientando a coerência entre as relações das características de linguagem e as características técnico-construtivas, com enfoque para o pioneirismo no uso do concreto armado em nosso país, elevando-a, portanto, à categoria de primeira obra Moderna realizada no Brasil. Isto posto, Lemos irá discorrer sobre a referida obra desta forma:
“A prática da arquitetura moderna começa, então, pelo uso de uma nova tecnologia atendendo a um novo programa e, aos poucos, os demais condicionantes vão sendo atendidos com outros recursos ou enfoques. Assim não será muito fácil a gente determinar com exata precisão quais foram as primeiras obras arquitetônicas modernas brasileiras, ou pelo menos tendentes à modernidade mercê do uso racional da nova tecnologia. Cremos que a primeira manifestação moderna de arquitetura tenha ocorrido entre nós através de algumas obras, ou projetos, do arquiteto franco-argentino Victor Dubugras (1868 – 1933). Dentro de seu ecletismo pelas conveniências do momento, em certas ocasiões, tinha lampejos personalistas de extremo bom senso como se percebe na sua estação da Estrada de Ferro Sorocabana em Mairinque, de 1907, trabalho que podemos considerar pioneiro na arquitetura moderna brasileira, quando vemos pela primeira vez o concreto armado empregado dentro de sua potencialidade plástica nas marquises atirantadas, nos torrões, nos vãos, nos espaços abrigados, segundo cálculos estruturais corretos e atendendo a um programa ferroviário que, se não era novo, era ligado a uma recente vida na região até praticamente aqueles dias vinculada ao mundo de transporte pelas tropas e ao comércio de muares na célebre feira de Sorocaba ali próxima” (14).
Escadarias de acesso à estação [Acervo pessoal do autor, 2008]
E, no tocante ao relatório da Planart, este irá desenvolver o seguinte comentário:
“Trata-se de um dos mais importantes monumentos históricos ferroviários do Brasil, e de um dos mais antigos edifícios em todo o mundo a ser construído com uma linguagem plástica moderna, em concreto armado. O aspecto pioneiro de Mairinque, enquanto inovação arquitetônica, é ainda maior porque nos faz recuar de mais de dois decênios o início da Arquitetura Moderna Brasileira, cujo marco de referência tem sido considerado, em geral, como sendo a residência de Warchavchik, de 1929. A relevância do projeto de Victor Dubugras é estabelecida de forma definitiva quando o comparamos com um dos principais marcos da história de toda a arquitetura contemporânea, que é o projeto do arquiteto Tony Garnier para uma Cidade Industrial, que foi publicada em 1903, contemporâneo portanto ao projeto da Estação de Mairinque. Esse projeto, que não foi executado, é considerado um dos monumentos pioneiros da Arquitetura Moderna em todo o mundo. Os seus aspectos inovadores consistiam principalmente no uso pretendido do concreto armado como material corrente e na linguagem plástica geometrizada, aspectos presentes no projeto de Dubugras” (15).
Detalhe da caixilharia do saguão principal, com destaque para a posição original do relógio que não mais existe [Acervo pessoal do autor, 2008]
Pelas argumentações apresentadas em ambas as citações, parece-nos que ficam evidentes os motivos que levaram ao Processo de Tombamento da referida estação, concretizado em 28 de outubro de 1986. No entanto, não poderíamos deixar de registrar uma polêmica importante, levantada pelo Professor Augusto Carlos de Vasconcelos, que afirma que tal obra não é de fato construída em concreto armado, mas, sim, com uma técnica construtiva próxima ao “cemento semi-armato” (16).
Detalhe das nervuras [Acervo pessoal do autor, 2008]
Sobre este fato, entendemos que não podemos olhar o processo construtivo, descrito anteriormente, com os olhos de hoje que estão embasados em descrições sistematizadas e transformadas em normas técnicas específicas, mas, sim, com o olhar voltado para as limitações técnicas e de materiais da época, principalmente nas condições de construção de um empreendimento com as características de uma ferrovia. Acreditamos que a materialização da Estação de Mairinque agregue um forte componente de empirismo e de adaptação das condições ofertadas, tanto técnicas quanto de materiais, que nos permite inferir pelo próprio histórico da produção e da postura profissional do arquiteto Victor Dubugras.
Detalhe das nervuras [Acervo pessoal do autor, 2008]
Considerações finais
Como mencionado na apresentação do presente artigo, o objetivo principal deste trabalho foi o de resgatar e, simultaneamente, trazer a Estação de Mairinque para um debate mais contemporâneo, sobre o estado atual de conservação deste importante patrimônio arquitetônico tombado pelo órgão de preservação do Estado de São Paulo, Condephaat, em 1986, tirando-a, portanto, do ostracismo a que foi relegada desde a década de seu tombamento.
Detalhe da caixilharia do pavimento superior (almoxarifado e telégrafo), com destaque para a solução da ventilação permanente [Acervo pessoal do autor, 2008]
Mesmo tombado, este patrimônio, precursor da Arquitetura Moderna Brasileira, sofreu toda ordem de vandalismo, tanto por parte de agentes oriundos da população local quanto dos próprios agentes que hoje usufruem, economicamente, de concessão de uso da infra-estrutura ferroviária outorgada pela União. Porém, o poder público municipal (administração 2001 – 2004), sensibilizado pelo estado precário de conservação e de avançada deterioração, consegue, após várias representações junto a RFFSA, adquirir para a municipalidade de Mairinque a posse deste edifício e, após este ato, procura instalar em suas dependências o “Centro da Memória Ferroviária de Mairinque”.
Detalhe interna da estrutura do pilar [Acervo pessoal da autora, 2008]
Esta iniciativa da Prefeitura Municipal, extremamente louvável como idéia, carece ainda de maior implementação de recursos humanos e de museografia, em que pese contar com esforços, quase que individuais, de um único funcionário chamado Ageu, que tenta ordenar o pouco acervo disponível e manter à distância os depredadores de plantão.
Detalhe interna da estrutura do pilar [Acervo pessoal da autora, 2008]
Pensamos que a presente situação poderia ser revertida e implementada, se os atuais gestores da América Latina Logística do Brasil S.A., atual concessionária do trecho ferroviário em estudo, em parceria com a Prefeitura Municipal de Mairinque, espelhassem-se no espírito empreendedor de personalidades como Luiz Matheus Maylasky e de tantos outros que, imbuídos de uma visão de futuro, de progresso e de modernidade, não só construíram redes ferroviárias, mas também redes de cidades.
OBS:
fotos e texto do site Vitruvius
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.109/44
Esse blog começou como algo específico sobre design de interiores, mas com o tempo e com a experiência, comecei a mostrar mais sobre o patrimônio arquitetônico, cultural, gastronômico e imaterial em cidades brasileiras, falando também sobre como o turismo acontece nesses locais e como visitar. Por aqui você também vai ver atividades relacionadas à cultura, como exposições e mostras.
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22/01/2011
01/05/2010
Casa Modernista na Rua Santa Cruz - Gregory Warchavchik
Estive lá no começo no ano passado, mais precisamente em Março, e não sei porque não coloquei nada no blog. Então, aproveitando que coloquei as informações sobre a casa da Rua Itápolis, vou atualizar com informações sobre essa casa que é tão legal quanto, e é de fato a primeira construída.
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Fotos tiradas pelo Robson Leandro :)
http://www.flickr.com/photos/robsonleandro/page60/
A Casa Modernista da rua Santa Cruz localiza-se no distrito de Vila Mariana, em São Paulo. Projeto do arquiteto Gregori Warchavchik é considerada a primeira residência modernista do Brasil, e é tombada pelo poder público estadual por sua importância histórica, artística e arquitetônica.
Em 1927, em função de seu casamento, começa a construir para si, na rua Santa Cruz, bairro de Vila Mariana, em São Paulo, aquela que seria considerada a primeira casa modernista do país, concluída em 1928. O projeto, a construção, a decoração, os interiores, os móveis e as peças de iluminação, são de autoria do arquiteto. Mina Klabin Warchavchik, além de prover financeiramente a obra, também colaborou com o projeto paisagístico para o jardim - eventualmente também considerado o primeiro projeto paisagístico moderno do país, embora tal afirmação também encontre divergências.
Muitos foram os obstáculos para tal empreendimento, desde a aprovação da fachada pela prefeitura até a disponibilidade do material desejado e o emprego da mão-de-obra. Para conseguir a aprovação dos “censores de fachadas” da Prefeitura de São Paulo, Warchavchik teve de apresentar um projeto ligeiramente camuflado com ornatos. Mas, ao começar a construção, alegou falta de recursos para tais acabamentos e assim a casa ficou conforme seu ideal - livre de rebuscamento, estuques e cornijas.
A beleza da fachada terá que resultar da racionalidade do plano da disposição interior, como a forma da máquina é determinada pelo mecanismo que é a sua alma. Manifesto número um da “Moderna Arquitetura Brasileira”.
Com esse projeto, surge uma das polêmicas mais importantes do movimento moderno, provocado pelo arquiteto Dácio de Morais, que o criticava em artigos do Correio Paulistano. Também no Correio, em 1928, Warchavchik responde às críticas com o artigo “Arquitetura Nova”, no qual encontra-se o seguinte trecho:
Não querendo copiar o que na Europa está se fazendo, inspirado pelo encanto das paisagens brasileiras, tentei criar um caráter de arquitetura que se adaptasse a esta região, ao clima e também às antigas tradições desta terra. Ao lado de linhas retas, nítidas, verticais e horizontais, que constituem, em forma de cubos e planos, o principal elemento da arquitetura moderna, fiz uso das tão decorativas e características telhas coloniais e creio que consegui idear uma casa muito brasileira, pela sua perfeita adaptação ao ambiente. O jardim, de caráter tropical, em redor da casa, contém toda a riqueza das plantas típicas brasileiras.[1]
Em suma, seu projeto para a casa teve como objetivo a racionalidade, o conforto, a utilidade, uma boa ventilação e iluminação – ideais preconizados por Le Corbusier. Inspirado nas paisagens brasileiras, criou uma arquitetura que se adaptou à região, ao clima e às tradições do país. O uso das telhas coloniais ao lado das linhas retas – principais elementos da arquitetura moderna – e a composição da arquitetura com o jardim de flora nativa de caráter tropical, projetado por sua esposa, deram à residência um aspecto muito brasileiro.
Durante a construção da casa, Warchavchik se deparou com alguns problemas devidos às limitações técnicas do país. Teve de vencer dificuldades como o alto preço dos materiais - cimento, vidro e ferro - e com a falta de uma indústria de acessórios construtivos típicos da arquitetura moderna. Além disso, teve de se transformar em mestre de obras, uma vez que a mão-de-obra também não estava preparada para tamanha inovação. Para tanto, montou oficinas para a execução de esquadrias de madeira lisa e, graças a um mestre de marcenaria alemão, introduziu no país a madeira compensada. A alvenaria também não pôde ser feita de concreto armado, mas de tijolo revestido por cimento branco.
Participantes da Semana de Arte Moderna de 1922, como Oswald de Andrade, Anísio Teixeira, Mário de Andrade, Osvaldo da Costa e Mário de Andrade, opinaram sobre o sucesso de Warchavchik, ao conseguir uma essência nacional na casa sem comprometer o objetivo de romper com os elementos tradicionais da Arquitetura.
Reforma de 1934
Em 1934 o arquiteto resolve reformar a casa, deslocando a entrada frontal para lateral e incluindo uma marquise. O mesmo se dá com o portão de acesso ao terreno, que é deslocado para a esquerda, onde se encontra até hoje. Foi ampliada a sala de estar, que avançou sobre a varanda e no piso superior foi criada uma varanda em substituição ao telhado colonial existente, um banheiro e foi ampliado o quarto principal. Os caixilhos originais em ferro foram substituídos por madeira e o caixilho com basculantes na escada foi substituído por blocos de vidro cilíndricos.
Atualidade
A casa, hoje pertencente ao Estado de São Paulo, foi tombada em 1986 [2] pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado e reconhecida como Patrimônio Histórico pelo IPHAN, tornando-se um parque. O tombamento se deu por intermédio de moradores da região que queriam impedir a implantação de um loteamento residencial, proposto por uma construtora, para o local.
Durante décadas, a casa da Rua Santa Cruz recebeu inúmeros projetos de restauro, sem que nada ocorresse de efetivo. Durante muito tempo esteve em péssimo estado de conservação. No final da década de 1990, um grupo de arquitetos fundadores da Escola da Cidade propôs implantar no parque-jardim, de aproximadamente 13.000m², uma escola de arquitetura; porém, foi impedido pela Secretaria da Cultura e pela Associação Pró-Parque Modernista, receosas de que a intervenção prejudicasse o parque.
Mais recentemente, representantes brasileiros de uma associação mundial que visa a preservação do patrimônio arquitetônico moderno, reuniram-se com o objetivo de solucionar os problemas da Casa de Warchavchik. O parque foi utilizado durante algum tempo por um grupo escoteiro para a manutenção e o cuidado.
Nos anos 2000 são realizadas obras para a restauração do imóvel, com a primeira etapa de 2000 a 2002 e segunda entre 2004 e 2007. Estas reformas restauraram a casa principal, mas o orçamento foi insuficiente para a recuperação da edícula e do parque.
Em março de 2008, o governo do Estado transferiu para a Prefeitura a responsabilidade pelo uso e manutenção da Casa Modernista. Como permissionária do imóvel, realiza trabalhos emergenciais e a reabre o parque e a casa em agosto do mesmo ano. No entanto, o conjunto precisa de completa recuperação ainda em andamento no final de 2008. Atualmente é uma das onze casas do Museu da Cidade de São Paulo.
OBS: informações retiradas do site http://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_Modernista_%28rua_Santa_Cruz,_S%C3%A3o_Paulo%29.
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Fotos tiradas pelo Robson Leandro :)
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A Casa Modernista da rua Santa Cruz localiza-se no distrito de Vila Mariana, em São Paulo. Projeto do arquiteto Gregori Warchavchik é considerada a primeira residência modernista do Brasil, e é tombada pelo poder público estadual por sua importância histórica, artística e arquitetônica.
Em 1927, em função de seu casamento, começa a construir para si, na rua Santa Cruz, bairro de Vila Mariana, em São Paulo, aquela que seria considerada a primeira casa modernista do país, concluída em 1928. O projeto, a construção, a decoração, os interiores, os móveis e as peças de iluminação, são de autoria do arquiteto. Mina Klabin Warchavchik, além de prover financeiramente a obra, também colaborou com o projeto paisagístico para o jardim - eventualmente também considerado o primeiro projeto paisagístico moderno do país, embora tal afirmação também encontre divergências.
Muitos foram os obstáculos para tal empreendimento, desde a aprovação da fachada pela prefeitura até a disponibilidade do material desejado e o emprego da mão-de-obra. Para conseguir a aprovação dos “censores de fachadas” da Prefeitura de São Paulo, Warchavchik teve de apresentar um projeto ligeiramente camuflado com ornatos. Mas, ao começar a construção, alegou falta de recursos para tais acabamentos e assim a casa ficou conforme seu ideal - livre de rebuscamento, estuques e cornijas.
A beleza da fachada terá que resultar da racionalidade do plano da disposição interior, como a forma da máquina é determinada pelo mecanismo que é a sua alma. Manifesto número um da “Moderna Arquitetura Brasileira”.
Com esse projeto, surge uma das polêmicas mais importantes do movimento moderno, provocado pelo arquiteto Dácio de Morais, que o criticava em artigos do Correio Paulistano. Também no Correio, em 1928, Warchavchik responde às críticas com o artigo “Arquitetura Nova”, no qual encontra-se o seguinte trecho:
Não querendo copiar o que na Europa está se fazendo, inspirado pelo encanto das paisagens brasileiras, tentei criar um caráter de arquitetura que se adaptasse a esta região, ao clima e também às antigas tradições desta terra. Ao lado de linhas retas, nítidas, verticais e horizontais, que constituem, em forma de cubos e planos, o principal elemento da arquitetura moderna, fiz uso das tão decorativas e características telhas coloniais e creio que consegui idear uma casa muito brasileira, pela sua perfeita adaptação ao ambiente. O jardim, de caráter tropical, em redor da casa, contém toda a riqueza das plantas típicas brasileiras.[1]
Em suma, seu projeto para a casa teve como objetivo a racionalidade, o conforto, a utilidade, uma boa ventilação e iluminação – ideais preconizados por Le Corbusier. Inspirado nas paisagens brasileiras, criou uma arquitetura que se adaptou à região, ao clima e às tradições do país. O uso das telhas coloniais ao lado das linhas retas – principais elementos da arquitetura moderna – e a composição da arquitetura com o jardim de flora nativa de caráter tropical, projetado por sua esposa, deram à residência um aspecto muito brasileiro.
Durante a construção da casa, Warchavchik se deparou com alguns problemas devidos às limitações técnicas do país. Teve de vencer dificuldades como o alto preço dos materiais - cimento, vidro e ferro - e com a falta de uma indústria de acessórios construtivos típicos da arquitetura moderna. Além disso, teve de se transformar em mestre de obras, uma vez que a mão-de-obra também não estava preparada para tamanha inovação. Para tanto, montou oficinas para a execução de esquadrias de madeira lisa e, graças a um mestre de marcenaria alemão, introduziu no país a madeira compensada. A alvenaria também não pôde ser feita de concreto armado, mas de tijolo revestido por cimento branco.
Participantes da Semana de Arte Moderna de 1922, como Oswald de Andrade, Anísio Teixeira, Mário de Andrade, Osvaldo da Costa e Mário de Andrade, opinaram sobre o sucesso de Warchavchik, ao conseguir uma essência nacional na casa sem comprometer o objetivo de romper com os elementos tradicionais da Arquitetura.
Reforma de 1934
Em 1934 o arquiteto resolve reformar a casa, deslocando a entrada frontal para lateral e incluindo uma marquise. O mesmo se dá com o portão de acesso ao terreno, que é deslocado para a esquerda, onde se encontra até hoje. Foi ampliada a sala de estar, que avançou sobre a varanda e no piso superior foi criada uma varanda em substituição ao telhado colonial existente, um banheiro e foi ampliado o quarto principal. Os caixilhos originais em ferro foram substituídos por madeira e o caixilho com basculantes na escada foi substituído por blocos de vidro cilíndricos.
Atualidade
A casa, hoje pertencente ao Estado de São Paulo, foi tombada em 1986 [2] pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado e reconhecida como Patrimônio Histórico pelo IPHAN, tornando-se um parque. O tombamento se deu por intermédio de moradores da região que queriam impedir a implantação de um loteamento residencial, proposto por uma construtora, para o local.
Durante décadas, a casa da Rua Santa Cruz recebeu inúmeros projetos de restauro, sem que nada ocorresse de efetivo. Durante muito tempo esteve em péssimo estado de conservação. No final da década de 1990, um grupo de arquitetos fundadores da Escola da Cidade propôs implantar no parque-jardim, de aproximadamente 13.000m², uma escola de arquitetura; porém, foi impedido pela Secretaria da Cultura e pela Associação Pró-Parque Modernista, receosas de que a intervenção prejudicasse o parque.
Mais recentemente, representantes brasileiros de uma associação mundial que visa a preservação do patrimônio arquitetônico moderno, reuniram-se com o objetivo de solucionar os problemas da Casa de Warchavchik. O parque foi utilizado durante algum tempo por um grupo escoteiro para a manutenção e o cuidado.
Nos anos 2000 são realizadas obras para a restauração do imóvel, com a primeira etapa de 2000 a 2002 e segunda entre 2004 e 2007. Estas reformas restauraram a casa principal, mas o orçamento foi insuficiente para a recuperação da edícula e do parque.
Em março de 2008, o governo do Estado transferiu para a Prefeitura a responsabilidade pelo uso e manutenção da Casa Modernista. Como permissionária do imóvel, realiza trabalhos emergenciais e a reabre o parque e a casa em agosto do mesmo ano. No entanto, o conjunto precisa de completa recuperação ainda em andamento no final de 2008. Atualmente é uma das onze casas do Museu da Cidade de São Paulo.
OBS: informações retiradas do site http://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_Modernista_%28rua_Santa_Cruz,_S%C3%A3o_Paulo%29.
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Warchavchik
23/04/2010
Casa Modernista na Rua Itápolis - Gregory Warchavchik
Domingo passado estive numa das casas modernistas de São Paulo, aliás uma das primeiras do Brasil, idealizada e construída pelo arquiteto Gregory Warchavchik. Essa, junto com as casas modernistas da Rua Santa Cruz e Rua Bahia, constituem algumas das mais importantes obras desse arquiteto, que já tinha idéias modernistas muito antes de Oscar Niemeyer.
Fiz uma visita guiada, organizada pelo Museu da Casa Brasileira, que está de parabéns pela iniciativa de desenvolver essas atividades e pela organização. Coloquei algumas fotos para vocês verem...
Created with Admarket's flickrSLiDR.
Warchavchik nasceu na cidade de Odessa, Ucrânia, então parte do Império Russo. Iniciou os estudos de arquitetura na própria Universidade Nacional de Odessa.
Em 1918 muda-se para Roma, Itália, ingressando no Regio Istituto Superiore di Belle Arti, diplomando-se em 14 de julho de 1920. Passa os dois primeiros anos de formado trabalhando para o professor e arquiteto neoclássico Marcello Piacentini (1881-1960), mais tarde conhecido como l'architetto del regime (fascista), e dirige a construção do Cinema-teatro Savoia (1922), em Florença.
Chega ao Brasil (segundo ele, terreno preparado para minhas idéias e meus sonhos) em 1923, no auge da vanguarda modernista, apenas um ano após a Semana de 22, encontrando aqui uma predisposição à aceitação das ideias que ele trazia da Europa - os preceitos de Walter Gropius (1883-1969), Mies van der Rohe (1886-1969) e Le Corbusier (1887-1966) - e já empregado pela Companhia Construtora de Santos, dirigida por Roberto Cochrane Simonsen, primeiro intelectual brasileiro a defender o trabalho racional dentro da indústria, seguindo a escola do taylorismo e do fordismo.
Contudo, ele não poderia ter chegado a um lugar mais oportuno, pois a província de São Paulo, mesmo possuindo ainda características de uma vila, fervilhava de intelectuais defensores da nova arte como Paulo Prado, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Graça Aranha, Renato de Almeida, Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, Plínio Salgado, Victor Brecheret, Emiliano Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Heitor Villa Lobos e outros. Warchavchik, como não poderia deixar de ser, logo entrou em contato com o grupo modernista de São Paulo, onde conheceu a jovem Mina Klabin, filha de um grande industrial da elite paulista, com quem viria a se casar em 1927, naturalizando-se brasileiro.
Em 1925, Warchavchik, escreve aquele que seria o primeiro manifesto da arquitetura modernista no Brasil, publicado inicialmente em italiano no jornal Il Piccolo no dia 15 de junho, intitulado “Futurismo?”, posteriormente traduzido e republicado pelo Correio da Manhã em 1º de novembro, como “Acerca da Architectura Moderna”. No mesmo ano, Walter Gropius iniciava a publicação dos Bauhausbücher, com a obra Internationale Architektur. Pode-se dizer que poucas e relativas dissonâncias separam seu documento ao do mestre alemão.
No artigo de Warchavchik, são expostas algumas ideias do arquiteto sobre o novo padrão de estética arquitetônica que estava florescendo. Segundo ele, assim como as máquinas que acompanhavam a evolução tecnológica, os edifícios também precisavam se modernizar, pois são verdadeiras “máquinas de morar” - não apenas no sentido das técnicas construtivas, que ficavam a cargo dos engenheiros da época, mas principalmente em relação à “cara” da construção. A crítica ao ornamento é feita de forma veemente: detalhe inútil e absurdo, imitação cega da técnica da arquitetura clássica, tudo isso era lógico e belo, mas não é mais. Para ele, o estudo da arquitetura clássica deveria servir apenas para dar ao arquiteto um sentimento de equilíbrio e proporção, do contrário, estaríamos fadados a viver em verdadeiras réplicas antiquadas, que destoavam totalmente dos equipamentos modernos, dos costumes modernos, enfim, da vida moderna.
Neste sentido, defendeu fortemente a produção de uma arquitetura livre dos legados do passado, e que refletisse a época da modernidade - lógica e livre de ornatos.
Mesmo tendo em seus conhecimentos extensa cultura clássica e ainda convivido com Marcello Piacentini, o qual publicaria em 1930 o livreto Architettura d'oggi, atacando a nova arquitetura e afirmando que esta lhe parecia um produto efêmero, Warchavchik se mostra fiel ao movimento que se processava e aos seus estudos sobre os novos materiais.
A Casa da Rua Itápolis
Essa casa, no Pacaembu, aqui em São Paulo, ficou em exposição de 26 de março a 20 de abril de 1930 e impulsionou a renovação arquitetônica brasileira, tornando-se uma referência e complementando a revolução assinalada pela “Semana de Arte Moderna de 1922”.
No projeto, Warchavchik procurou resolver, de maneira mais estética possível, a questão econômica e funcional. Ao contrário do tradicional, eliminou corredores com a finalidade de obter mais espaço. Uma planta-baixa pequena, simples e econômica mudou a concepção de muitos a respeito da arquitetura moderna e passou a ser referência para o Estado. Ou seja, usar menos espaço para ter mais integração.
Warchavchik recebeu muitos elogios, mas especiais foram os de Le Corbusier, já que era um admirador e seguidor de suas idéias. Le Corbusier, que visitou a casa ainda em construção, em 1929, admirou a plasticidade do muro em curva que separa o jardim social do quintal de serviço, dentre outros aspectos do projeto. Muito impressionado, decide, em uma reunião junto com outros intelectuais paulistas, na própria residência, que Warchavchik representaria não só o Brasil como toda a América do Sul, como delegado dos Congrès Internationaux d'Architecture Moderne (CIAM). Durante a exposição, dentro da casa, haviam objetos de vários artistas do período, entre escultores, pintores, escritores, etc.
Eu, que nunca tinha ouvido falar desse arquiteto até conhecer a casa modernista da Rua Santa Cruz, fico cada vez mais impressionada com o pensamento inovador que ele tinha para a época em que viveu e sua esposa, Mina Klabin, também criou o paisagismo com plantas brasileiras. Assim como foi com as obras do Frank Lloyd Wright, as obras do Warchavchik são amor à primeira vista!
OBS:
- fotos tiradas pelo Robson Leandro e eu... :D
- algumas informações do texto foram passadas pelo guia da casa e do museu, outras foram retiradas do site http://pt.wikipedia.org/wiki/Gregori_Warchavchik
- Museu da Casa Brasileira www.mcb.org.br
Aliás, essas visitas guiadas fizeram tanto sucesso que o museu pensa em manter essa atividade permanente, legal né?! :D
Fiz uma visita guiada, organizada pelo Museu da Casa Brasileira, que está de parabéns pela iniciativa de desenvolver essas atividades e pela organização. Coloquei algumas fotos para vocês verem...
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Warchavchik nasceu na cidade de Odessa, Ucrânia, então parte do Império Russo. Iniciou os estudos de arquitetura na própria Universidade Nacional de Odessa.
Em 1918 muda-se para Roma, Itália, ingressando no Regio Istituto Superiore di Belle Arti, diplomando-se em 14 de julho de 1920. Passa os dois primeiros anos de formado trabalhando para o professor e arquiteto neoclássico Marcello Piacentini (1881-1960), mais tarde conhecido como l'architetto del regime (fascista), e dirige a construção do Cinema-teatro Savoia (1922), em Florença.
Chega ao Brasil (segundo ele, terreno preparado para minhas idéias e meus sonhos) em 1923, no auge da vanguarda modernista, apenas um ano após a Semana de 22, encontrando aqui uma predisposição à aceitação das ideias que ele trazia da Europa - os preceitos de Walter Gropius (1883-1969), Mies van der Rohe (1886-1969) e Le Corbusier (1887-1966) - e já empregado pela Companhia Construtora de Santos, dirigida por Roberto Cochrane Simonsen, primeiro intelectual brasileiro a defender o trabalho racional dentro da indústria, seguindo a escola do taylorismo e do fordismo.
Contudo, ele não poderia ter chegado a um lugar mais oportuno, pois a província de São Paulo, mesmo possuindo ainda características de uma vila, fervilhava de intelectuais defensores da nova arte como Paulo Prado, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Graça Aranha, Renato de Almeida, Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, Plínio Salgado, Victor Brecheret, Emiliano Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Heitor Villa Lobos e outros. Warchavchik, como não poderia deixar de ser, logo entrou em contato com o grupo modernista de São Paulo, onde conheceu a jovem Mina Klabin, filha de um grande industrial da elite paulista, com quem viria a se casar em 1927, naturalizando-se brasileiro.
Em 1925, Warchavchik, escreve aquele que seria o primeiro manifesto da arquitetura modernista no Brasil, publicado inicialmente em italiano no jornal Il Piccolo no dia 15 de junho, intitulado “Futurismo?”, posteriormente traduzido e republicado pelo Correio da Manhã em 1º de novembro, como “Acerca da Architectura Moderna”. No mesmo ano, Walter Gropius iniciava a publicação dos Bauhausbücher, com a obra Internationale Architektur. Pode-se dizer que poucas e relativas dissonâncias separam seu documento ao do mestre alemão.
No artigo de Warchavchik, são expostas algumas ideias do arquiteto sobre o novo padrão de estética arquitetônica que estava florescendo. Segundo ele, assim como as máquinas que acompanhavam a evolução tecnológica, os edifícios também precisavam se modernizar, pois são verdadeiras “máquinas de morar” - não apenas no sentido das técnicas construtivas, que ficavam a cargo dos engenheiros da época, mas principalmente em relação à “cara” da construção. A crítica ao ornamento é feita de forma veemente: detalhe inútil e absurdo, imitação cega da técnica da arquitetura clássica, tudo isso era lógico e belo, mas não é mais. Para ele, o estudo da arquitetura clássica deveria servir apenas para dar ao arquiteto um sentimento de equilíbrio e proporção, do contrário, estaríamos fadados a viver em verdadeiras réplicas antiquadas, que destoavam totalmente dos equipamentos modernos, dos costumes modernos, enfim, da vida moderna.
Neste sentido, defendeu fortemente a produção de uma arquitetura livre dos legados do passado, e que refletisse a época da modernidade - lógica e livre de ornatos.
Mesmo tendo em seus conhecimentos extensa cultura clássica e ainda convivido com Marcello Piacentini, o qual publicaria em 1930 o livreto Architettura d'oggi, atacando a nova arquitetura e afirmando que esta lhe parecia um produto efêmero, Warchavchik se mostra fiel ao movimento que se processava e aos seus estudos sobre os novos materiais.
A Casa da Rua Itápolis
Essa casa, no Pacaembu, aqui em São Paulo, ficou em exposição de 26 de março a 20 de abril de 1930 e impulsionou a renovação arquitetônica brasileira, tornando-se uma referência e complementando a revolução assinalada pela “Semana de Arte Moderna de 1922”.
No projeto, Warchavchik procurou resolver, de maneira mais estética possível, a questão econômica e funcional. Ao contrário do tradicional, eliminou corredores com a finalidade de obter mais espaço. Uma planta-baixa pequena, simples e econômica mudou a concepção de muitos a respeito da arquitetura moderna e passou a ser referência para o Estado. Ou seja, usar menos espaço para ter mais integração.
Warchavchik recebeu muitos elogios, mas especiais foram os de Le Corbusier, já que era um admirador e seguidor de suas idéias. Le Corbusier, que visitou a casa ainda em construção, em 1929, admirou a plasticidade do muro em curva que separa o jardim social do quintal de serviço, dentre outros aspectos do projeto. Muito impressionado, decide, em uma reunião junto com outros intelectuais paulistas, na própria residência, que Warchavchik representaria não só o Brasil como toda a América do Sul, como delegado dos Congrès Internationaux d'Architecture Moderne (CIAM). Durante a exposição, dentro da casa, haviam objetos de vários artistas do período, entre escultores, pintores, escritores, etc.
Eu, que nunca tinha ouvido falar desse arquiteto até conhecer a casa modernista da Rua Santa Cruz, fico cada vez mais impressionada com o pensamento inovador que ele tinha para a época em que viveu e sua esposa, Mina Klabin, também criou o paisagismo com plantas brasileiras. Assim como foi com as obras do Frank Lloyd Wright, as obras do Warchavchik são amor à primeira vista!
OBS:
- fotos tiradas pelo Robson Leandro e eu... :D
- algumas informações do texto foram passadas pelo guia da casa e do museu, outras foram retiradas do site http://pt.wikipedia.org/wiki/Gregori_Warchavchik
- Museu da Casa Brasileira www.mcb.org.br
Aliás, essas visitas guiadas fizeram tanto sucesso que o museu pensa em manter essa atividade permanente, legal né?! :D
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Warchavchik
06/09/2009
Modernismo Perdido
Vila operária modernista do arquiteto Gregori Warchavchik está ameaçada

Caiu em duplo esquecimento um prédio chave na arquitetura moderna brasileira. Varrida da história, a vila operária construída por Gregori Warchavchik na zona portuária do Rio, nos anos 30, está descaracterizada há mais de 20 anos e ficou de fora dos projetos de reforma que prometem revitalizar a região do cais do porto carioca.
Esforços anunciados há pouco pela prefeitura alardeiam o restauro de casas do século 19 na região e de todo o complexo do morro da Conceição, vizinho de dois museus que devem ser construídos por lá até 2011. Mas, perto dali, a única obra de Warchavchik sobrevivente no Rio está ameaçada.
Projetada pelo arquiteto que fez a Casa Modernista, em São Paulo, a vila operária no Rio é uma espécie de elo perdido da história da arquitetura brasileira. Marca a transição do primeiro modernismo feito no país, sob forte influência do racionalismo da Bauhaus, às curvas que vieram depois, com Le Corbusier e Oscar Niemeyer.
Também é um exemplo de um racionalismo retórico, que marcou a tentativa de ser moderno num país ainda sem industrialização. Embora as esquadrias, a laje e o acabamento pareçam sair de uma linha de montagem, são feitos à mão, imitação da indústria ausente.
"É aqui que se dá o clique, a passagem para o moderno brasileiro", resume o curador Paulo Herkenhoff, que visitou a vila com a reportagem. Desde que começou a prestar consultoria para a futura Pinacoteca do Rio, que deve ser instalada num prédio próximo dali, Herkenhoff tem sugerido à prefeitura a inclusão da vila operária nos planos de restauro do porto.
Mesmo tombado pelo patrimônio municipal há 23 anos, o complexo, hoje ainda ocupado por moradores, está descaracterizado. Teve as telhas, os revestimentos do teto e das fachadas trocados. Também foram ocupadas as áreas deixadas livres no projeto original.
"Essa é a maior descaracterização, a ocupação dos espaços que eram coletivos", diz Otavio Leonídio, arquiteto e professor da PUC-Rio. "Era para ser um espaço vazio, que ventila, ilumina os andares de baixo."
É um conjunto de casas mínimas: quatro cômodos que se distribuem em torno de um pequeno quadrado, tendo de um lado cozinha e banheiro e, do outro, sala e quartos. "É a casa proletária", resume Leonídio.
Lúcio Costa
Embora tenha entrado para a história como obra de Warchavchik, o projeto foi assinado por Lúcio Costa, arquiteto que desenhou o plano urbano de Brasília. Não há dúvida que a vila tem os traços de Warchavchik, mas, como eram sócios à época, Costa pode ter assinado a planta como formalidade.
"Isso é mais Warchavchik do que Lúcio Costa", afirma Herkenhoff. "Não consigo imaginar o Costa virando moderno e fazendo esse tipo de projeto."
É um dado que abre outro debate. Costa esteve à frente do Iphan por mais de 30 anos, mas nunca tombou a vila de Warchavchik nem as outras duas casas que o arquiteto construiu no Rio, hoje demolidas.
"Ele rejeitava esse racionalismo duro, de caráter alemão, funcionalista", diz Leonídio. "Costa chamava isso de modernismo estilizado, ele foi muito duro com o Warchavchik."
Acabaram preservados os projetos da vertente francesa, de Le Corbuiser e Niemeyer. "A história da arquitetura escolheu um campo e ficou nele", diz Herkenhoff. "A vila está no gongo para salvar, no ponto."

Conjunto operário de Warchavchik está fora das prioridades para prefeitura
A defesa do patrimônio histórico do Rio reconhece que o conjunto operário de Gregori Warchavchik está "descaracterizado há muito tempo", nas palavras do subsecretário de patrimônio cultural, Washington Fajardo. "Eu não realizei uma vistoria lá desde que assumi, no início deste ano", diz ele.
Fajardo diz, no entanto, que o patrimônio cultural tem outras prioridades no momento, restaurando bens anteriores à vila.
A prefeitura do Rio diz que o restauro do complexo não está nos planos de revitalização, mas que considera a inclusão da vila numa segunda etapa de obras das reformas.
"Isso pode até ser considerado, mas não está hoje no nosso mapa de prioridades de locais para recuperação", diz Felipe Gois, do Instituto Pereira Passos, órgão municipal que cuida da revitalização.
Informações e fotos do site: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u601899.shtml
Reportagem de SILAS MARTÍ da Folha de S.Paulo, enviado especial ao Rio
Caiu em duplo esquecimento um prédio chave na arquitetura moderna brasileira. Varrida da história, a vila operária construída por Gregori Warchavchik na zona portuária do Rio, nos anos 30, está descaracterizada há mais de 20 anos e ficou de fora dos projetos de reforma que prometem revitalizar a região do cais do porto carioca.
Esforços anunciados há pouco pela prefeitura alardeiam o restauro de casas do século 19 na região e de todo o complexo do morro da Conceição, vizinho de dois museus que devem ser construídos por lá até 2011. Mas, perto dali, a única obra de Warchavchik sobrevivente no Rio está ameaçada.
Projetada pelo arquiteto que fez a Casa Modernista, em São Paulo, a vila operária no Rio é uma espécie de elo perdido da história da arquitetura brasileira. Marca a transição do primeiro modernismo feito no país, sob forte influência do racionalismo da Bauhaus, às curvas que vieram depois, com Le Corbusier e Oscar Niemeyer.
Também é um exemplo de um racionalismo retórico, que marcou a tentativa de ser moderno num país ainda sem industrialização. Embora as esquadrias, a laje e o acabamento pareçam sair de uma linha de montagem, são feitos à mão, imitação da indústria ausente.
"É aqui que se dá o clique, a passagem para o moderno brasileiro", resume o curador Paulo Herkenhoff, que visitou a vila com a reportagem. Desde que começou a prestar consultoria para a futura Pinacoteca do Rio, que deve ser instalada num prédio próximo dali, Herkenhoff tem sugerido à prefeitura a inclusão da vila operária nos planos de restauro do porto.
Mesmo tombado pelo patrimônio municipal há 23 anos, o complexo, hoje ainda ocupado por moradores, está descaracterizado. Teve as telhas, os revestimentos do teto e das fachadas trocados. Também foram ocupadas as áreas deixadas livres no projeto original.
"Essa é a maior descaracterização, a ocupação dos espaços que eram coletivos", diz Otavio Leonídio, arquiteto e professor da PUC-Rio. "Era para ser um espaço vazio, que ventila, ilumina os andares de baixo."
É um conjunto de casas mínimas: quatro cômodos que se distribuem em torno de um pequeno quadrado, tendo de um lado cozinha e banheiro e, do outro, sala e quartos. "É a casa proletária", resume Leonídio.
Lúcio Costa
Embora tenha entrado para a história como obra de Warchavchik, o projeto foi assinado por Lúcio Costa, arquiteto que desenhou o plano urbano de Brasília. Não há dúvida que a vila tem os traços de Warchavchik, mas, como eram sócios à época, Costa pode ter assinado a planta como formalidade.
"Isso é mais Warchavchik do que Lúcio Costa", afirma Herkenhoff. "Não consigo imaginar o Costa virando moderno e fazendo esse tipo de projeto."
É um dado que abre outro debate. Costa esteve à frente do Iphan por mais de 30 anos, mas nunca tombou a vila de Warchavchik nem as outras duas casas que o arquiteto construiu no Rio, hoje demolidas.
"Ele rejeitava esse racionalismo duro, de caráter alemão, funcionalista", diz Leonídio. "Costa chamava isso de modernismo estilizado, ele foi muito duro com o Warchavchik."
Acabaram preservados os projetos da vertente francesa, de Le Corbuiser e Niemeyer. "A história da arquitetura escolheu um campo e ficou nele", diz Herkenhoff. "A vila está no gongo para salvar, no ponto."
Conjunto operário de Warchavchik está fora das prioridades para prefeitura
A defesa do patrimônio histórico do Rio reconhece que o conjunto operário de Gregori Warchavchik está "descaracterizado há muito tempo", nas palavras do subsecretário de patrimônio cultural, Washington Fajardo. "Eu não realizei uma vistoria lá desde que assumi, no início deste ano", diz ele.
Fajardo diz, no entanto, que o patrimônio cultural tem outras prioridades no momento, restaurando bens anteriores à vila.
A prefeitura do Rio diz que o restauro do complexo não está nos planos de revitalização, mas que considera a inclusão da vila numa segunda etapa de obras das reformas.
"Isso pode até ser considerado, mas não está hoje no nosso mapa de prioridades de locais para recuperação", diz Felipe Gois, do Instituto Pereira Passos, órgão municipal que cuida da revitalização.
Informações e fotos do site: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u601899.shtml
Reportagem de SILAS MARTÍ da Folha de S.Paulo, enviado especial ao Rio
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23/03/2008
Oscar Niemeyer: Eterno Gênio
Oscar Niemeyer nasceu no Rio de Janeiro, em 1907. Considerado o mais importante arquiteto brasileiro deste século em função da quantidade e qualidade de obras construídas, iniciou sua carreira no escritório de Lucio Costa, em 1934, quando se graduou na Escola Nacional de Belas Artes.
A partir do instante em que substituiu Costa na coordenação do grupo que desenvolveu os estudos de Le Corbusier para o edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, Niemeyer desempenhou o papel principal na corrente modernista que privilegiava a expressão plástica. Em 1947, o edifício-sede da Unesco, nos Estados Unidos, proporciona mais uma vez a Niemeyer a oportunidade de dividir com Le Corbusier o projeto definitivo que funde as propostas independentes de cada um dos arquitetos.
A influência corbusiana é notável nas primeiras obras de Niemeyer. Porém, pouco a pouco o arquiteto adquire sua marca: a leveza das formas curvas cria os espaços que transformam o programa arquitetural em ambientes inusitados; portanto, harmonia, graça e elegância são os adjetivos mais apropriados para o trabalho de Oscar Niemeyer. As adaptações que o arquiteto produziu conectando o vocabulário barroco ao modernismo arquitetônico possibilitaram experiências formais com volumes espetaculares, que foram concretizadas por calculistas famosos, entre eles o brasileiro Joaquim Cardoso e o italiano Pier Luigi Nervi.
A arquitetura de Brasília, prevista nos esboços com que Lucio Costa concorreu ao concurso internacional de projetos para a nova capital do Brasil, foi o impulso definitivo de Niemeyer na cena da história internacional da arquitetura contemporânea. As cúpulas côncava e convexa do Congresso Nacional e as colunas dos palácios da Alvorada, do Planalto e da Suprema Corte, configuram signos originais. Agregando-os às espetaculares formas das colunas da Catedral e dos palácios Itamaraty e da Justiça, Niemeyer encerra a perspectiva ortogonal e simétrica formada pelo ritmo repetitivo dos edifícios da Esplanada dos Ministérios.
O uso das estruturas em concreto armado em formas curvas ou em casca e as explorações inéditas das possibilidades estéticas da linha reta se traduziram em fábricas, arranha-céus, espaços para exposições, residências, teatros, templos, edifícios-sede de empresas dos setores público e privado, universidades, clubes, hospitais e equipamentos para diversos programas sociais. Desses temas sobressaem-se os seguintes trabalhos: a Obra do Berço e sua residência na Estrada das Canoas, no Rio de Janeiro; a fábrica Duchen, o edifício Copan e o Parque do Ibirapuera, em São Paulo; o conjunto arquitetônico da Pampulha, com o Cassino, o Restaurante e o Templo de São Francisco de Assis, em Belo Horizonte; o projeto para o Hotel de Ouro Preto (Minas Gerais), o Museu de Caracas (Venezuela), a sede do Partido Comunista (Paris), a sede da Editora Mondatori (Milão), a Universidade de Constantine (Argélia) e o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (Rio de Janeiro).
A presença constante de Oscar Niemeyer no cenário da arquitetura contemporânea internacional, desde 1936 até os dias atuais, o transformou em símbolo brasileiro. Recebeu inúmeros prêmios e possui vasta bibliografia, onde se destacam títulos de sua autoria e de Stamo Papadaki, além de várias edições temáticas das principais revistas de arquitetura da França e da Itália.
"Como grande admiradora este exemplo de vida, dedicação e criatividade, confesso que muitas vezes me inspiro em seus projetos e em sua vida. Mesmo quando ele se for, e espero sinceramente que isso demore, ele nunca deixará de ser eterno."
Fonte: http://www.mre.gov.br/CDBRASIL/ITAMARATY/WEB/port/artecult/arqurb/arquitet/mmodern/oscarn/apresent.htm
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